Conhecemos o Sr. Jair e seu filho Carlinhos por indicação de uma senhora moradora do Morro do Bode, em Florianópolis, que se sensibilizara pela difícil situação em que eles viviam. Moravam numa pequena casa onde um simpático velhinho de olhar triste, porem sempre com um sorriso nos lábios cuidava de uma jovem criança de oito anos de idade. A mãe, alcoólatra, abandonara o lar deixando toda a responsabilidade sobre o Sr. Jair que já passava dos 70 anos e estava constantemente doente. Com uma aposentadoria de 1 salário mínimo, fraco, doente, tendo que cuidar sozinho do menino, nossa Associação prontamente passou a auxilia-lo com roupas, alimentos, material escolar e remédios. Nunca nos esqueceremos das conversas, da sabedoria, do relato de uma vida dura, sem demonstração de amargura ou revolta. Quanto aprendemos com ele... Um dia, a surpresa triste, o Sr. Jair foi chamado para ocupar o seu lugar no céu. Imediatamente após sua morte, a esposa, D. Noemi, reapareceu reivindicando a guarda do Carlinhos. Dizia-se recuperada do problema do alcoolismo e disposta a assumir sua maternidade. No começo, acreditávamos que ela estava apenas interessada na pensão como viúva, porém com o tempo, comprovamos sua sinceridade. D. Noemi, Sr.Oscar, o seu atual marido, e Carlinhos se mudaram para Sertão do Imaruim. Um lugar pobre, sem saneamento básico, distante de posto de saúde e de que qualquer ação social do governo. Mas, segundo D. Noemi um lugar seguro onde seu filho não estaria exposto a drogas e ao crime. O Novo Alvorecer continuou a assisti-los e a fazer suas visitas periódicas apesar da longa distância da sua sede até o local. Certo dia D. Noemi passou a queixar-se de dores nas pernas. Ao procurar um médico do SUS, o diagnóstico: trombose. Passamos então a fornecer sob receita médica remédios para a trombose. Por vários meses se estendeu o tratamento sem a paciente apresentar nenhuma melhora, ao contrário, nos últimos meses ela não conseguia sair mais da cama. Cansados de vê-la neste estado e recebendo péssimo tratamento do sistema de saúde pública a Associação resolveu pagar uma consulta num especialista em cirurgia vascular. Na consulta, o médico ao examina-la, descartou a hipótese de trombose, encaminhando-a a uma série de exames de alto custo para diagnóstico correto. Coincidentemente, no dia marcado para os exames, D. Noemi é internada no Hospital Regional como hemorragia interna. Três dias após é transferida para o CEPON, pois estava com câncer. No CEPON, apesar do bom tratamento, das medicações, da dedicação dos profissionais, D. Noemi falece 15 dias após sua internação. Ficamos indignados com isto. Porque a saúde pública não dá um tratamento digno para o cidadão quando ele procura um hospital ou posto de saúde logo no inicio da doença, quanto as chances de cura são maiores e os remédios são mais baratos? Porque só depois que o paciente está para morrer é que são destinados a ele tratamento digno e humano, com é a caso do CEPON, quando os remédios são caros e as chances de sobrevivência são menores? O jovem Carlinhos, hoje vive com seu padrasto, Sr. Oscar, uma pessoa responsável que temos certeza que saberá cuidar muito bem do menino. Por decisão de assembléia o Novo Alvorecer continuará auxiliando dentro das suas possibilidades o menino Carlinhos como reconhecimento a todos os esforços feitos por pessoas como o Sr. Jair, que nunca teve facilidades na vida, como D. Noemi que venceu suas batalhas pessoais contra seus vícios e como Sr. Oscar que assumiu com dignidade as responsabilidades impostas pela vida. Jamais esqueceremos esta gente. Jamais... | "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome. Gente: espelho da vida. Doce mistério" | | Caetano Veloso |
Para o Sr. Jair e D. Noemi, em memória. |